A suinocultura brasileira nunca teve tanta tecnologia disponível para produzir melhor.
Automação, genética, nutrição de precisão, diagnóstico, equipamentos e ferramentas de gestão avançam dentro das granjas.
Mesmo assim, nenhuma dessas soluções consegue resolver sozinha o problema que hoje mais preocupa o produtor: o suíno sendo vendido abaixo do custo de produção.
Essa contradição ficou evidente em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, durante o 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura.
Realizado entre 11 e 13 de agosto, o encontro reuniu especialistas, empresas, produtores e profissionais da cadeia justamente num momento em que o mercado enfrenta excesso de oferta, pressão sobre os preços e deterioração das margens.
Chapecó voltou ao centro da suinocultura
Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas, o Nucleovet, o simpósio colocou na pauta alguns dos principais desafios técnicos da produção.
A programação abordou sanidade, biosseguridade, nutrição, longevidade das matrizes, ambiência, sucessão familiar, escassez de mão de obra, gestão e tecnologia.
Paralelamente, a 17ª Brasil Sul Pig Fair reuniu mais de 50 empresas com soluções voltadas a automação, genética, diagnóstico, nutrição de precisão, equipamentos e manejo.
O local do debate tem peso.
Chapecó está no coração de uma das regiões mais importantes da produção brasileira de suínos e dentro de Santa Catarina, maior produtor e exportador nacional da proteína.
É também no Estado que a pressão atual do mercado se transforma rapidamente em preocupação econômica para cooperativas, agroindústrias e milhares de propriedades rurais.
Eficiência ajuda, mas não corrige preço
A modernização da granja tem impacto direto no resultado. Tecnologia pode reduzir desperdícios, melhorar conversão alimentar, diminuir mortalidade, facilitar o monitoramento dos animais e permitir decisões mais rápidas.
Tudo isso reduz custos e aumenta produtividade. Mas existe um limite. Se o preço recebido pelo suíno permanece abaixo do custo, produzir com mais eficiência apenas reduz o tamanho da perda. Não resolve o desequilíbrio de mercado.
Hoje, o principal problema está no excesso de oferta. A produção cresceu mais rapidamente do que a capacidade de absorção do mercado. Com mais carne disponível, os preços recuaram. É uma crise diferente daquela provocada por milho e farelo de soja caros.
Desta vez, o problema começa na quantidade produzida e na dificuldade de encontrar demanda suficiente para sustentar as cotações.
Menos abates podem aliviar pressão
O Agro Mensal de agosto, da Consultoria Agro do Itaú BBA, identificou sinais preliminares de redução no ritmo dos abates em julho. Se esse movimento continuar, a menor produção pode ajudar gradualmente a reduzir a quantidade de carne disponível e aliviar a pressão sobre os preços.
Mas não existe garantia. O resultado dependerá também do desempenho das exportações e da capacidade de reação do consumo doméstico. Se os embarques perderem força, parte do ajuste pode desaparecer com mais carne permanecendo no mercado brasileiro.
A recuperação, portanto, depende de várias peças funcionando ao mesmo tempo. Produção mais equilibrada, vendas externas firmes e consumo interno capaz de acompanhar a oferta.
Próximo risco pode estar no milho
Hoje, os insumos não são o principal vilão da suinocultura. Mas isso pode mudar. Existe preocupação com os possíveis impactos do El Niño sobre a safra 2026/27. Se o fenômeno afetar a produção de milho, a consequência poderá aparecer no custo da ração em 2027.
E milho e farelo de soja têm participação decisiva na estrutura de custos das granjas. Nesse cenário, a suinocultura poderia enfrentar um problema ainda mais complexo: continuar pressionada pelo preço recebido e, ao mesmo tempo, voltar a conviver com alimentação mais cara.
Por isso, manter eficiência dentro da propriedade continua sendo fundamental, mesmo que ela não seja suficiente para resolver a crise atual.
Tecnologia é parte da resposta
O debate de Chapecó mostra que a suinocultura brasileira continua investindo e tentando se preparar para um ambiente mais competitivo.
Produzir melhor será cada vez mais necessário. A escassez de mão de obra aumenta a demanda por automação. A pressão por custos exige precisão. Sanidade e biosseguridade continuam fundamentais para preservar mercados.
Gestão ganha espaço porque decisões erradas ficam ainda mais caras quando a margem desaparece. Mas a discussão econômica precisa caminhar junto. Uma granja altamente tecnológica não deixa de ter problema se o preço de venda permanece abaixo do custo.
O setor pode melhorar produtividade, reduzir perdas e usar dados para tomar decisões melhores. Ainda assim, a rentabilidade depende de uma conta que vai muito além da porteira.
Chapecó mostrou como produzir. O mercado precisa responder quanto vai pagar
A realização do Simpósio Brasil Sul de Suinocultura em meio à crise de margens ajuda a resumir o momento da cadeia. De um lado, uma atividade cada vez mais sofisticada, tecnológica e eficiente. Do outro, um mercado que precisa encontrar equilíbrio entre produção e demanda.
Não existe contradição em investir em tecnologia durante uma crise. Pelo contrário. É justamente quando a margem aperta que eficiência se torna ainda mais necessária. O risco está em imaginar que a tecnologia resolverá sozinha um problema provocado pelo mercado.
Ela pode ajudar a produzir melhor, pode reduzir perdas, pode melhorar a gestão. Mas não cria consumidor, não abre mercado externo sozinha e não determina o preço recebido pelo produtor.
Chapecó discutiu durante três dias como fazer uma suinocultura mais eficiente. Agora, a conta que precisa fechar é outra.
O setor já sabe produzir cada vez melhor. O desafio é fazer o mercado voltar a remunerar quem produz.










