Santa Catarina nunca vendeu tanta carne suína para o exterior. Mesmo assim, dentro da granja, tem produtor fazendo uma conta bem diferente: prejuízo estimado em até R$ 120 por animal terminado.
A suinocultura entrou em um período de forte pressão sobre as margens. E, ao contrário de outras crises recentes, desta vez milho e farelo de soja não são os principais responsáveis.
O problema está na oferta.
A produção cresceu mais rapidamente do que a capacidade de absorção dos mercados interno e externo. Com mais animais chegando ao abate, os preços recuaram e passaram a ficar abaixo do custo de produção.
Segundo o Agro Mensal de agosto, da Consultoria Agro do Itaú BBA, o suíno vivo foi negociado na Região Sul por aproximadamente R$ 5,15 o quilo em julho, enquanto o custo ficou próximo de R$ 6,20 por quilo. É uma diferença negativa de R$ 1,05 por quilo.
Considerando um animal terminado, essa distância pode representar uma perda próxima de R$ 120, embora o resultado varie de acordo com peso, sistema produtivo, eficiência da propriedade e relação contratual do produtor.
A conta é simples e preocupante: o suíno sai da granja valendo menos do que custou para ser produzido.
Santa Catarina sente mais porque produz mais
O cenário ganha outra dimensão quando chega a Santa Catarina. O Estado é o maior produtor e exportador brasileiro de carne suína. Em 2025, embarcou 748,8 mil toneladas e faturou US$ 1,85 bilhão com a proteína. Sozinho, respondeu por 50,9% do volume exportado pelo Brasil e 51,8% da receita nacional.
A produção também alcançou recorde: 18,3 milhões de suínos em 2025.
Esse tamanho ajuda a explicar por que qualquer desequilíbrio de mercado tem efeito tão forte no Estado.
A suinocultura está concentrada especialmente no Oeste catarinense, onde se conecta a cooperativas, grandes agroindústrias, fábricas de ração, transportadoras, produtores de milho, prestadores de serviços e milhares de propriedades rurais.
Quando a margem desaparece dentro da granja, o problema rapidamente deixa de ser apenas do suinocultor.
Exportações continuam batendo recorde
O mais curioso é que a crise de margem acontece justamente em um período de desempenho histórico no comércio exterior.
Entre janeiro e julho de 2026, Santa Catarina exportou 437,4 mil toneladas de carne suína, gerando US$ 1,09 bilhão.
São os melhores resultados da série histórica para os primeiros sete meses do ano, tanto em volume quanto em faturamento. O Estado respondeu por 48,5% da quantidade e 51,3% das receitas brasileiras com exportação de carne suína no período.
O Japão se tornou o principal comprador em receita e aumentou fortemente suas aquisições. Coreia do Sul e Geórgia também ampliaram as compras. Em contrapartida, mercados importantes como Filipinas, China e Chile reduziram os embarques de produto catarinense.
Isso ajuda a entender a aparente contradição.
Exportar mais não significa necessariamente retirar produto suficiente do mercado para sustentar preços.
Se a produção cresce mais do que a demanda total, mesmo um desempenho externo recorde pode não ser suficiente para equilibrar a oferta.
O problema agora é produzir demais
Nos últimos anos, boa parte das preocupações da suinocultura esteve concentrada no custo da ração. Milho caro e farelo de soja pressionavam diretamente a rentabilidade. O cenário atual é diferente.
Os custos de alimentação estão relativamente mais controlados, mas a quantidade de carne disponível cresceu. Quando a oferta aumenta mais rapidamente do que o consumo, a primeira reação costuma aparecer no preço.
É o velho problema de qualquer mercado agrícola: produzir muito pode ser uma excelente notícia até o momento em que não existe comprador suficiente para absorver o excedente.
A carne pode ficar mais barata para o consumidor. Mas, se o preço recebido pelo produtor cai abaixo do custo, alguém passa a financiar esse desequilíbrio. E normalmente essa conta chega primeiro à propriedade.
Recorde pode esconder fragilidade
O desempenho de Santa Catarina mostra como duas realidades podem existir ao mesmo tempo. De um lado, uma cadeia altamente competitiva, com produção recorde, excelência sanitária, tecnologia e acesso a mercados exigentes.
Do outro, produtores enfrentando margem negativa. Essa situação merece atenção justamente porque Santa Catarina construiu boa parte da força econômica do Oeste sobre a integração entre campo e agroindústria.
Uma crise curta pode ser absorvida. Uma sequência prolongada de preços abaixo do custo começa a mudar decisões. Produtor posterga investimento, reduz manutenção, evita ampliação, aperta mão de obra. E, em situações mais graves, começa a questionar a permanência na atividade.
Chapecó discute eficiência enquanto mercado cobra ajuste
O momento de pressão coincidiu com a realização do 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura, entre 11 e 13 de agosto, em Chapecó. O evento reuniu mais de 2,6 mil participantes e mais de 100 empresas para discutir gestão, nutrição, sanidade, tecnologia, mão de obra e o futuro da proteína suína.
Isso mostra outro lado da questão. A cadeia continua investindo para ser mais eficiente. Tecnologia pode reduzir mortalidade, melhorar conversão alimentar, aperfeiçoar manejo e diminuir custos.
Mas eficiência dentro da granja tem limite. Nenhuma tecnologia resolve permanentemente uma situação em que o preço recebido fica abaixo do custo de produção.
Quem vai fazer o ajuste?
É essa a pergunta que começa a rondar a cadeia. Se a demanda interna não acelerar e as exportações não crescerem o suficiente para absorver a produção, o mercado terá de encontrar algum tipo de equilíbrio.
Isso pode vir por maior consumo, pode vir pela abertura e expansão de mercados internacionais, pode vir por redução no ritmo de produção. Ou pode ocorrer da forma mais dolorosa: com produtores reduzindo plantéis ou deixando a atividade porque não conseguem mais sustentar a conta.
Santa Catarina conhece bem a importância de produzir muito. Construiu uma das cadeias de proteína animal mais eficientes do mundo justamente com escala, sanidade, integração e capacidade de exportação. Mas o momento atual deixa um alerta.
Recorde de produção não é sinônimo de rentabilidade. Recorde de exportação também não.
Entre janeiro e julho, Santa Catarina vendeu mais carne suína ao exterior do que nunca para esse período.
Ainda assim, dentro de algumas granjas, o animal pode estar deixando um prejuízo estimado em R$ 120.
É a contradição que a cadeia terá de resolver. Porque produzir mais é sinal de eficiência. Produzir mais e pagar para trabalhar é sinal de que o mercado perdeu o equilíbrio.







