A renegociação das dívidas rurais pode ser necessária para dar fôlego ao produtor no curto prazo, mas, sem uma política mais robusta de seguro rural, o Brasil corre o risco de repetir o mesmo problema nas próximas safras.
O alerta é do Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas, o FGV Agro, que comparou o impacto fiscal estimado da renegociação das dívidas com o potencial de ampliação do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, o PSR.
Segundo a análise, o custo fiscal da renegociação pode chegar a R$ 3,6 bilhões por ano. Se o mesmo volume de recursos fosse aplicado no PSR, considerando os resultados observados em 2025, poderia viabilizar até R$ 112,6 bilhões em importância segurada.
A simulação indica ainda potencial para proteger cerca de 20,47 milhões de hectares, apoiar aproximadamente 398 mil apólices e movimentar R$ 10,16 bilhões em prêmios de seguro.
A comparação não significa, porém, que a FGV defenda substituir a renegociação pelo seguro rural.
Renegociação resolve o passivo, seguro tenta evitar o próximo
A Medida Provisória 1.376/2026 abriu espaço para a reorganização de dívidas de produtores atingidos por perdas sucessivas, redução de renda e dificuldades de pagamento.
Na avaliação apresentada pelo FGV Agro, essa resposta é importante para evitar que produtores economicamente viáveis percam garantias, fiquem sem acesso ao crédito ou reduzam a produção.
O problema aparece no que vem depois.
Se o produtor consegue alongar a dívida, mas retorna à atividade com pouca proteção contra novas perdas climáticas, uma nova quebra de safra pode levá-lo novamente à inadimplência.
É o risco que os pesquisadores classificam como uma espécie de “renegociação da renegociação”.
Enquanto a renegociação atua depois que a perda já se transformou em dívida, o seguro rural tenta impedir que um evento climático comprometa integralmente a capacidade financeira da propriedade.
PSR perdeu alcance nos últimos anos
A comparação também chama atenção para a perda de escala do seguro rural subvencionado.
Em 2025, o PSR contou com R$ 581,1 milhões em subvenção, alcançou cerca de 3,3 milhões de hectares e protegeu aproximadamente R$ 18,1 bilhões em produção.
O resultado ficou distante do melhor momento recente do programa. Em 2021, o PSR chegou a aproximadamente 14,23 milhões de hectares segurados.
A recomendação dos pesquisadores é recuperar, pelo menos, esse patamar e transformar o seguro em uma política mais previsível, evitando que sua capacidade de contratação varie tanto de uma safra para outra.
Expansão não seria automática
A própria FGV ressalva que transformar R$ 3,6 bilhões em mais de R$ 112 bilhões de produção segurada é uma simulação.
Uma expansão dessa magnitude dependeria da capacidade das seguradoras e resseguradoras, da disponibilidade de produtos adequados para diferentes culturas e regiões e, principalmente, da adesão dos produtores.
Ainda assim, os números ajudam a colocar a discussão sobre endividamento rural em outra perspectiva.
Renegociar dívidas pode ser essencial para garantir a continuidade da próxima safra. Mas, se a política agrícola continuar concentrada apenas no socorro depois da perda, o governo corre o risco de voltar à mesma mesa de negociação alguns anos depois.
Para o agro, o desafio é combinar as duas frentes: reorganizar o passivo de quem já sofreu prejuízo e ampliar a proteção para evitar que a próxima perda vire uma nova dívida.









