O próximo presidente da República encontrará um agronegócio capaz de produzir safras cada vez maiores, mas também uma estrutura financeira pressionada por endividamento, seguro rural insuficiente, dificuldades de acesso ao crédito e pendências fundiárias que ainda limitam investimentos em diferentes regiões do país.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja, a Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, a reestruturação do crédito e do seguro rural precisa estar entre as prioridades do governo que assumir o país em 2027.
Os dois problemas estão diretamente conectados. Quando uma quebra de safra acontece sem seguro suficiente, o produtor perde receita, continua responsável pelos financiamentos contratados e chega ao próximo ciclo com menor capacidade de acessar novos recursos.
A consequência aparece depois no endividamento e na necessidade de novas renegociações.
Seguro rural amplia problema do crédito
O seguro aparece como um dos pontos mais frágeis dessa estrutura.
Estimativas apresentadas pelo setor indicam que menos de 4% da área agrícola brasileira conta hoje com cobertura do seguro rural subvencionado, percentual que pode ficar ainda menor em 2026 diante dos bloqueios e limitações orçamentárias do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural.
A subvenção federal reduz parte do custo da apólice paga pelo produtor e amplia a possibilidade de contratação. Quando há menos recursos disponíveis, parte dos agricultores precisa assumir sozinho o valor integral do seguro ou seguir para a safra sem proteção.
O problema não termina quando a lavoura é perdida. Sem indenização, o prejuízo pode rapidamente se transformar em dificuldade para pagar o crédito contratado e financiar o próximo plantio.
Por isso, a discussão sobre seguro rural também começa a ser tratada como uma discussão sobre estabilidade do próprio sistema de crédito.
Fundo garantidor entra na proposta
Entre as alternativas defendidas pela Aprosoja está a criação ou fortalecimento de um fundo garantidor capaz de reduzir o risco das operações de financiamento rural.
A ideia é oferecer uma camada adicional de garantia para permitir que produtores tenham acesso ao crédito sem depender exclusivamente de patrimônio próprio, imóveis ou outras garantias exigidas pelas instituições financeiras.
Esse tipo de instrumento ganha relevância justamente num cenário em que produtores atingidos por sucessivas perdas climáticas podem ter patrimônio comprometido e menor capacidade de apresentar garantias para uma nova operação.
A defesa é de uma estrutura permanente, capaz de funcionar também nos períodos de maior adversidade e não apenas depois que a crise já chegou à propriedade.
Terra regular também significa acesso ao dinheiro
A regularização fundiária aparece na mesma conta.
Sem documentação adequada, o produtor pode encontrar dificuldades para oferecer a propriedade como garantia, acessar determinadas linhas de financiamento ou avançar em investimentos de longo prazo.
A Aprosoja também inclui entre as prioridades a conclusão do Cadastro Ambiental Rural, o CAR, e maior segurança jurídica para quem produz.
A questão fundiária, portanto, não fica restrita à propriedade da terra. Ela interfere diretamente no crédito, na capacidade de investimento e na valorização do patrimônio rural.
Infraestrutura completa a lista
Outro ponto apresentado pelo setor é a necessidade de ampliar investimentos em armazenagem, rodovias, ferrovias e portos.
Uma produção maior exige capacidade semelhante para guardar e transportar os grãos.
Quando o produtor não encontra espaço suficiente para armazenagem, pode ser obrigado a comercializar em momentos menos favoráveis. Quando rodovias e ferrovias não acompanham o crescimento da safra, frete e tempo de deslocamento consomem parte da margem antes mesmo de o produto chegar ao porto.
Por isso, crédito, seguro, regularização e infraestrutura não aparecem como problemas separados.
Sem documentação, falta garantia. Sem seguro, aumenta o risco do financiamento. Sem crédito, diminui a capacidade de investir. Sem logística, parte da competitividade conquistada dentro da propriedade desaparece depois da porteira.
Uma agenda que chegará a 2027
A eleição de 2026 deverá encontrar o agronegócio novamente no centro da discussão econômica, mas entidades do setor começam a cobrar que o debate vá além dos números de produção e exportação.
O Brasil já demonstrou capacidade para aumentar produtividade e ganhar mercados. O desafio do próximo governo será criar condições para que essa produção seja financiada, protegida e transportada com maior previsibilidade.
Para o produtor, essa discussão começa antes da próxima safra.
Crédito, seguro e regras fundiárias determinam quanto será possível plantar, quanto risco será assumido e quanto investimento poderá ser feito.
A produção acontece dentro da propriedade, mas uma parte cada vez maior da competitividade depende das decisões de política agrícola tomadas fora dela.








