sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Agro Agora
Dólar PTAX · BRBrasilR$ 5,1859 +0,43%Soja · SCChapecóR$ 138,00 +1,32%Milho · GORio VerdeR$ 53,40 0,00%Milho · MTCáceresR$ 52,80 0,00%Milho · MSCampo GrandeR$ 73,80 0,00%Milho · SPAvaréR$ 61,80 0,00%

Mercado

Proteína invade o prato e transforma soro do leite em ativo estratégico da indústria

Investimentos em whey, lactose e proteínas concentradas mostram como a busca por alimentos proteicos está aumentando o valor industrial do soro do leite.

Busca por alimentos mais proteicos sai das academias, chega às refeições cotidianas e transforma subprodutos da indústria em ingredientes estratégicos de alto valor.
Divulgação

Durante muito tempo, falar em whey protein era quase sinônimo de academia.

Hoje, a proteína está no leite de caixinha, no café pronto, na sobremesa, no sorvete, no milk-shake, no iogurte e até em alimentos que antes dificilmente seriam associados à suplementação.

Essa mudança no prato do consumidor começou a transformar também a lógica da indústria.

E um dos exemplos mais claros está justamente em algo que durante décadas teve valor muito menor dentro da cadeia do leite: o soro resultante da fabricação de queijo.

O que antes era tratado principalmente como subproduto agora pode ser separado, concentrado e transformado em whey protein, lactose e ingredientes destinados à indústria de alimentos, nutrição especializada, suplementos e produtos farmacêuticos.

A nova disputa do leite começa depois que o queijo já foi feito.

Proteína deixou de ser produto de nicho

O movimento não surgiu de uma única tendência. Existe uma combinação de fatores.

Consumidores mais atentos à alimentação, envelhecimento da população, busca por conveniência, crescimento dos suplementos e popularização de produtos associados à performance e à saciedade estão levando a proteína para novas ocasiões de consumo.

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres, a ABIAD, mostram que o consumo aparente do setor cresceu 4,2% em 2025. No primeiro trimestre de 2026, categorias que incluem suplementos, alimentos funcionais, produtos com restrição de nutrientes e nutrição enteral registraram avanço de 14,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A indústria percebeu que não está vendendo proteína apenas para quem quer ganhar massa muscular.

O mercado passou a dialogar com consumidores interessados em recuperação, praticidade, envelhecimento saudável, controle da alimentação e produtos que concentrem mais nutrientes em porções menores.

É por isso que a proteína começou a sair do pote de suplemento e entrar diretamente na formulação dos alimentos.

Até as canetas para emagrecer mudaram a cesta de compras

Outro fenômeno começou a acelerar essa transformação: o avanço dos medicamentos da classe dos GLP-1.

Um levantamento da NielsenIQ com consumidores brasileiros que utilizam essas chamadas canetas emagrecedoras identificou uma mudança relevante na alimentação.

Entre os entrevistados, 84,4% disseram ter aumentado o consumo de proteínas animais. Ao mesmo tempo, 76,9% afirmaram ter reduzido ou eliminado chocolates e doces e 73,4% diminuíram snacks e biscoitos.

Isso não significa que os medicamentos sejam os responsáveis pela onda proteica. A tendência já existia.

Mas eles acrescentaram um novo elemento: consumidores que passam a comer menores quantidades e, por isso, ficam mais atentos ao que colocam dentro dessas porções.

É o mesmo movimento que começa a aparecer em padarias, cafeterias e restaurantes.

A indústria responde oferecendo produtos menores, práticos e com mais proteína por porção.

O leite percebeu essa mudança rapidamente

As gôndolas ajudam a contar essa história. Além do leite integral, semidesnatado ou desnatado, aparecem versões zero lactose, A2, enriquecidas e com maior quantidade de proteína.

Em junho, a Tetra Pak apontou justamente as bebidas proteicas, suplementos e opções voltadas a diferentes necessidades nutricionais entre os movimentos que estão transformando o mercado brasileiro de bebidas lácteas.

A Piracanjuba, por exemplo, já comercializa leite UHT com 10 gramas de proteína e ampliou em 2026 o portfólio com bebidas funcionais, produtos proteicos e até whey em parceria com uma rede de milk-shakes.

O que muda é a lógica econômica. Em vez de vender apenas leite, queijo ou manteiga, a indústria passa a tentar aproveitar cada componente daquele litro.

Proteína e lactose viram ingredientes, gordura vira produto, e o soro deixa de ser o que sobra para se tornar parte importante da margem.

Piracanjuba investe para produzir whey no Brasil

Um dos maiores movimentos recentes está no Sudoeste do Paraná.

O Grupo Piracanjuba inaugurou em junho uma nova unidade industrial em São Jorge D’Oeste, com capacidade para processar 1,2 milhão de litros de leite por dia.

Na primeira etapa, a fábrica produzirá queijos e manteiga. Nas próximas fases, o complexo passará a fabricar concentrados e isolados proteicos de soro, além de lactose em pó.

O projeto completo prevê capacidade anual de até 6 mil toneladas de whey protein e 14,8 mil toneladas de lactose em pó. O investimento total chega a R$ 612 milhões, com R$ 499 milhões financiados pelo BNDES.

E existe um dado que ajuda a explicar o tamanho da oportunidade.

Segundo informações utilizadas pelo BNDES a partir de dados de 2023, a produção brasileira atendia apenas cerca de 15% do mercado nacional desses concentrados e isolados proteicos, enquanto aproximadamente 85% do consumo era abastecido por importações.

Ou seja, existe demanda e existe espaço para substituir produto importado.

Não é apenas whey

A corrida pela proteína ultrapassa a cadeia do leite. A MBRF anunciou R$ 500 milhões em investimentos na Gelprime, empresa especializada em gelatina e colágeno da qual possui 50%.

O plano inclui novas linhas de colágeno funcional e hidrolisado, ingredientes que podem ser incorporados a bebidas e diferentes formulações alimentícias. A companhia relaciona o investimento ao crescimento estrutural da demanda por proteínas e produtos de maior valor agregado.

A lógica é semelhante. Aquilo que antes tinha menor valor dentro da cadeia animal passa por tecnologia e processamento e retorna ao mercado como ingrediente sofisticado.

No leite, isso acontece com o soro. Na cadeia bovina, acontece com matérias-primas destinadas à produção de gelatina e colágeno.

O agro começa a ganhar valor não apenas pelo que produz, mas por quantas aplicações consegue retirar daquilo que já produziu.

Soro também entra na nutrição especializada

Existe ainda outro mercado menos visível para o consumidor comum.

Em março, o BNDES aprovou R$ 197,6 milhões para investimentos da Sooro Renner em Francisco Beltrão, também no Paraná.

O projeto envolve produção de lactose e concentrados proteicos com padrão internacional de pureza voltado, entre outros mercados, à nutrição infantil.

Esse é um degrau diferente de agregação de valor. Quanto maior a pureza, a tecnologia de separação e a exigência sanitária, maior também pode ser a especialização do ingrediente e o mercado a que ele se destina.

Por isso, a disputa pelo soro não se resume aos potes de whey das academias. Ela alcança indústria alimentícia, nutrição clínica, alimentação infantil e diferentes formulações de alta tecnologia.

Um litro de leite pode passar a valer por partes

Essa transformação ajuda a explicar por que grandes grupos estão olhando com mais atenção para unidades capazes de integrar queijo, manteiga, whey e lactose dentro do mesmo parque industrial.

O queijo continua importante. Mas o valor econômico daquela matéria-prima deixa de depender exclusivamente dele. É quase como desmontar um litro de leite e perguntar quanto vale cada uma de suas partes.

Quanto mais componentes a indústria consegue aproveitar e transformar em produtos de maior valor, maior é o potencial de rentabilidade daquela operação.

Há também um ganho ambiental.

Quando o soro é processado dentro da própria unidade, reduz-se a necessidade de transportar grandes volumes líquidos entre fábricas. No projeto da Piracanjuba, o BNDES destaca justamente a integração industrial como forma de melhorar a eficiência e reduzir impactos logísticos.

E quanto disso chega ao produtor?

É aqui que a discussão volta para a porteira. Uma indústria mais eficiente e capaz de ganhar dinheiro com diferentes frações do leite tende a ser mais competitiva.

Pode significar novas fábricas, maior capacidade de processamento, demanda regional e redução da dependência de produtos importados.

Mas nada disso garante automaticamente um preço maior pelo litro recebido pelo produtor.

Essa será uma das questões centrais da transformação.

Se o soro ganha valor, o whey cresce, a lactose vira ingrediente estratégico e a indústria consegue aumentar a margem sobre cada litro processado, como esse ganho será distribuído pela cadeia?

O produtor continua sendo responsável pela matéria-prima que coloca toda essa engrenagem em funcionamento.

A inovação pode fortalecer o setor como um todo, mas seu impacto dentro da propriedade dependerá de concorrência pela captação, contratos, produtividade, estrutura regional e capacidade de a cadeia compartilhar o valor criado.

O consumidor está mudando a indústria antes mesmo de perceber

Talvez essa seja a parte mais interessante dessa história. Quem compra uma bebida com 15 ou 20 gramas de proteína provavelmente não está pensando na estrutura de uma fábrica de queijos no Paraná.

Mas aquela escolha chega até a indústria. A indústria muda a formulação, o equipamento, muda o investimento. Passa a procurar mais ingredientes proteicos. E, no fim, muda a forma como o leite é valorizado.

A alimentação mais proteica ainda pode ganhar novos formatos e sofrer novas mudanças. Tendências de consumo não são permanentes.

Mas os investimentos de centenas de milhões de reais mostram que as empresas estão apostando que existe algo mais estrutural acontecendo.

O consumidor não quer mais proteína apenas depois da academia.

Quer no café da manhã, no lanche, na bebida pronta e em alimentos capazes de combinar nutrição com conveniência.

E essa mudança está fazendo o setor descobrir que, às vezes, uma das partes mais valiosas do leite era justamente aquela que durante muito tempo ficou em segundo plano.

Afinidade de tema

Continue lendo

Atualização contínua

Últimas notícias