São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba e Serra do Salitre reconhecem crise econômica no agro; no alho, produtor recebe R$ 11 por quilo diante de custos que chegam a R$ 16,30
Quando uma crise agrícola começa a aparecer em decretos municipais, o problema já deixou de estar restrito à porteira.
Em poucos dias, São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba e Serra do Salitre, municípios do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, decretaram situação de emergência econômica no setor agropecuário. As medidas reconhecem oficialmente uma combinação de custos elevados, preços insuficientes para cobrir a produção, perdas climáticas, dificuldades de comercialização e aumento do endividamento rural. Em geral, os decretos têm validade inicial de 180 dias.
A crise atinge diferentes atividades, entre elas soja, milho, feijão, café, leite, pecuária e hortaliças. Mas uma cultura ajuda a mostrar a dimensão do problema com mais clareza: o alho.
Em São Gotardo, o custo de produção foi estimado em R$ 13,30 por quilo, enquanto em Ibiá chega a R$ 16,30. O preço médio recebido pelo produtor está próximo de R$ 11 por quilo. Nessa conta, as perdas estimadas chegam a R$ 70 mil por hectare em São Gotardo e a R$ 71,5 mil por hectare em Ibiá.
Produzir e vender já não significa necessariamente gerar renda.
E é nesse ponto que uma discussão que há meses circula por ministérios, entidades e Congresso começa a chegar à economia das cidades.
Presidente da Anapa diz que setor vinha alertando desde janeiro
Em vídeo divulgado nesta semana, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho, Rafael Jorge Cursino, afirmou que a entidade vinha alertando o governo federal desde o início do ano sobre a deterioração do mercado.
Segundo ele, mais de 70 ofícios foram encaminhados desde janeiro para órgãos como Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Camex, área de Defesa Comercial, Receita Federal, Ministério da Agricultura e Ministério do Desenvolvimento Agrário, além de reuniões e contatos com parlamentares e ministros.
Cursino atribui parte importante da crise à concorrência das importações e cobra novas medidas de defesa comercial.
A preocupação não começou agora.
Em abril, representantes da cadeia do alho levaram o problema à Frente Parlamentar da Agropecuária. Na ocasião, a Anapa já argumentava que o produto importado chegava ao mercado brasileiro em condições que pressionavam a competitividade da produção nacional e entregou ao governo pedidos relacionados ao alho proveniente da China e da Argentina.
Em junho, o assunto chegou também a uma audiência pública da Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, realizada justamente em São Gotardo.
Na ocasião, produtores voltaram a cobrar mudanças nos mecanismos de importação e medidas de defesa comercial. Segundo dados apresentados pela cadeia, o Alto Paranaíba responde por mais de 60% da produção mineira de alho, reúne aproximadamente 8 mil hectares cultivados e movimenta uma safra estimada em R$ 2,5 bilhões. A estimativa apresentada pela Anapa é de que cada hectare cultivado gere 16 postos de trabalho diretos e indiretos.
Ou seja, quando a margem desaparece na lavoura, o impacto não termina no produtor.
Chega ao trabalhador, à revenda de máquinas e insumos, ao posto de combustível, ao supermercado, ao comércio e à arrecadação municipal.
A proteção contra o alho chinês existe, mas o setor questiona se é suficiente
Há uma diferença importante nessa discussão.
Não é correto dizer que o Brasil está atualmente sem nenhuma proteção comercial contra o alho importado da China.
O governo brasileiro mantém direito antidumping definitivo sobre o alho chinês. A medida foi prorrogada em setembro de 2025 por mais cinco anos, com vigência prevista até setembro de 2030.
Atualmente, quatro empresas chinesas operam sob compromisso de preço, com valor de exportação CIF igual ou superior a US$ 1,53 por quilo. Para as demais empresas chinesas, o direito antidumping aplicado é de US$ 0,78 por quilo. O compromisso de preço foi atualizado novamente pela Secretaria de Comércio Exterior em julho deste ano.
A própria revisão conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento concluiu preliminarmente, ainda em 2025, que havia probabilidade de continuação do dumping e de continuidade do dano à indústria doméstica caso a proteção fosse retirada.
O questionamento dos produtores, portanto, avançou para outro ponto: a proteção existente está sendo suficiente para equilibrar a concorrência?
A Anapa tem defendido revisão do modelo de compromisso de preço aplicado aos exportadores chineses e maior fiscalização das importações.
Argentina virou outro ponto de pressão
A preocupação também se deslocou para a Argentina.
O país vizinho é um importante fornecedor de alho ao mercado brasileiro e, por fazer parte do Mercosul, está inserido em uma estrutura comercial diferente daquela aplicada à China.
A Anapa e entidades regionais passaram a defender a abertura de uma investigação antidumping sobre o alho argentino, alegando que a diferença entre os preços de entrada do produto importado e o custo brasileiro estaria prejudicando a produção nacional.
Até esta sexta-feira, 21 de agosto, a relação pública de procedimentos de defesa comercial divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento em 2026 não registra abertura de investigação antidumping específica contra o alho argentino. A lista registra, por outro lado, as atualizações realizadas neste ano no compromisso de preços referente ao alho chinês.
É nesse intervalo entre a reivindicação do setor e uma eventual medida federal que a pressão econômica continuou aumentando nas regiões produtoras.
Decreto de emergência não perdoa dívida
Os decretos municipais chamam atenção pelo termo “emergência”, mas é importante entender o que eles efetivamente fazem.
Eles não perdoam dívidas, não suspendem automaticamente parcelas de financiamentos e não obrigam bancos ou fornecedores a aceitarem renegociações.
O principal efeito é documental.
Ao reconhecer oficialmente uma situação econômica excepcional no setor agropecuário, o município cria uma base que pode ser utilizada pelos produtores para demonstrar a deterioração das condições econômicas em pedidos de prorrogação de custeios, renegociação de contratos, alongamento de dívidas e negociações com bancos, cooperativas, fornecedores e revendas.
Cada pedido continuará dependendo da situação individual do produtor, das regras do crédito rural, do contrato e da avaliação da instituição financeira.
Mas o decreto muda uma coisa importante: o produtor deixa de chegar sozinho à mesa de negociação tentando provar que existe uma crise. O próprio município passa a reconhecer formalmente que ela existe.
A crise não é apenas do alho
Embora o alho tenha ganhado protagonismo pela diferença entre custo e preço, os decretos mostram que o problema econômico do Alto Paranaíba é mais amplo.
Em São Gotardo, aparecem também cebola, batata, cenoura, soja, milho e pecuária leiteira. Em Ibiá, os documentos consideram inclusive a sequência de perdas nas lavouras de soja e milho entre 2021 e 2026, além de eventos como geadas, seca, granizo, vendavais e irregularidade das chuvas.
Serra do Salitre incluiu café, soja, milho, feijão, hortifrúti e pecuária entre as atividades alcançadas pelo reconhecimento de emergência econômica.
É uma combinação perigosa.
O produtor enfrenta perdas acumuladas por clima, carrega dívidas das safras anteriores, encontra crédito mais difícil e, quando finalmente consegue colher, pode receber menos do que precisa para pagar o custo de produção.
Na horticultura, essa pressão pode ser ainda mais rápida. São culturas intensivas em mão de obra, insumos, irrigação, classificação e armazenamento, com investimentos elevados por hectare e produtos que não podem simplesmente permanecer indefinidamente estocados esperando melhores preços.
Quando o prejuízo do campo começa a fechar a conta da cidade
No vídeo divulgado nesta semana, Rafael Cursino chamou atenção justamente para esse efeito.
Segundo o presidente da Anapa, em municípios fortemente dependentes da agricultura, a crise não atinge apenas quem planta. Ela se espalha pela economia local, reduz contratação de trabalhadores, consumo, compras de insumos, investimentos e circulação de dinheiro.
Rio Paranaíba reconheceu esse risco expressamente. O município afirma que a redução da renda do setor agropecuário pode repercutir no comércio, nos serviços e na própria arrecadação municipal.
É por isso que quatro decretos em municípios próximos precisam ser observados para além da política municipal.
Eles funcionam como um termômetro.
O produtor pode suportar uma safra ruim. Pode refinanciar parte do prejuízo de outra. Pode reduzir investimento na seguinte. Mas chega um momento em que a sequência de margens negativas deixa de aparecer apenas no balanço da fazenda e começa a atingir a economia que cresceu ao redor dela.
O alerta agora chegou a Brasília em forma de decreto
O setor do alho vem pedindo há meses mudanças na política de defesa comercial. As entidades reconhecem que o Brasil precisa importar parte do que consome, mas defendem que a entrada do produto estrangeiro ocorra sob condições que não inviabilizem a produção doméstica.
A discussão não é simplesmente fechar o mercado.
É saber se as regras atuais conseguem impedir práticas desleais sem transformar a proteção comercial em barreira injustificada ao consumidor e às importações legítimas.
No caso da China, existe antidumping e compromisso de preço. A discussão é sobre a eficácia desses instrumentos.
No caso da Argentina, produtores cobram uma investigação específica e alegam que a velocidade da resposta federal não acompanhou a velocidade da deterioração do mercado.
Enquanto isso, São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba e Serra do Salitre recorreram ao instrumento que tinham disponível e reconheceram oficialmente a emergência econômica.
O decreto municipal não recupera o preço do alho, não paga a dívida e não corrige sozinho a concorrência internacional.
Mas deixa um sinal político difícil de ignorar.
A crise do alho começou na planilha do produtor, chegou ao caixa do comércio e agora virou decreto nas prefeituras. A pergunta é quanto mais ela precisará avançar até produzir uma resposta capaz de chegar de volta à lavoura.








