A própolis que durante anos ficou associada principalmente às gotinhas guardadas no armário começou a aparecer em outro lugar: no prato.
Chefs, confeiteiros e profissionais da coquetelaria estão explorando o ingrediente em chocolates, sobremesas, cafés, molhos e drinques.
Para o consumidor, pode parecer apenas mais uma tendência gastronômica.
Para a apicultura, é uma nova possibilidade de mercado para um produto que o Brasil já produz, exporta e conseguiu transformar até em indicação geográfica.
Mas quanto de própolis o Brasil produz?
Aqui aparece uma dificuldade. O Brasil sabe com bastante precisão quanto produz de mel. Em 2024 foram 67,3 mil toneladas, recorde da série histórica do IBGE. Com a própolis, a fotografia é muito menos clara.
A Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE acompanha mel de abelha, mas não inclui uma variável específica para a produção de própolis. Isso significa que o país não possui uma série estatística nacional anual comparável à de outros produtos agropecuários.
Os números disponíveis vêm principalmente de levantamentos estaduais, entidades e instituições ligadas à apicultura. E Minas Gerais aparece com enorme destaque.
Minas produziu cerca de 260 toneladas
Segundo relatório da Emater-MG, a produção mineira de própolis chegou a aproximadamente 260.168 quilos em 2023, pouco mais de 260 toneladas.
O Estado é reconhecido como o principal produtor brasileiro de própolis verde. A agricultura familiar responde por cerca de 70% da produção de própolis mineira, segundo a empresa de assistência técnica.
Esse protagonismo não é por acaso.
A própolis muda conforme a vegetação disponível ao redor das colmeias. As abelhas coletam resinas das plantas e as utilizam na proteção da colônia.
Em Minas, o grande diferencial é o alecrim-do-campo, planta conhecida cientificamente como Baccharis dracunculifolia, que dá origem à famosa própolis verde.
Produto mineiro tem Denominação de Origem
A importância econômica e a ligação com o território fizeram a própolis verde mineira conquistar uma proteção semelhante à de vinhos, cafés e queijos.
Desde 2016, a Região da Própolis Verde de Minas Gerais possui Denominação de Origem reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI.
A área delimitada abrange 102 municípios mineiros. A certificação reconhece que características específicas do produto estão ligadas à região onde ele é produzido.
A própolis verde ganhou mercado principalmente no exterior. A Emater relata que o interesse comercial do Japão pela produção mineira começou ainda no fim da década de 1980 e depois avançou para outros países asiáticos, Europa e Estados Unidos.
É um caso interessante de valor agregado. A matéria-prima vem da interação entre vegetação, abelhas e manejo do produtor, mas termina vendida como extratos, suplementos, cosméticos e outros produtos de maior valor.
Agora, a gastronomia tenta entrar nessa lista.
Alagoas também colocou sua própolis no mapa
Minas não é o único território brasileiro reconhecido pela própolis. Nos manguezais de Alagoas é produzida a própolis vermelha, que também possui Denominação de Origem registrada no INPI.
A certificação foi concedida em 2012 para a própolis vermelha e seu extrato. A coloração e a composição estão relacionadas às plantas encontradas no ambiente de mangue e ao trabalho das abelhas na coleta das resinas.
Ou seja, falar em “própolis brasileira” esconde uma diversidade grande. Cor, aroma, composição e características mudam conforme flora, clima e território. E isso pode ser justamente uma vantagem quando o produto entra na gastronomia.
Nordeste tem potencial para ampliar produção
O Banco do Nordeste aponta que a região possui 24.167 estabelecimentos com atividade apícola e quase 700 mil colmeias, considerando o Censo Agropecuário de 2017.
Piauí, Bahia e Ceará concentravam o maior número de estabelecimentos apícolas, mas a avaliação técnica é de que todos os estados nordestinos possuem potencial para diversificar a atividade com própolis.
Hoje, grande parte dos produtores ainda concentra a renda no mel. A própolis pode funcionar como uma segunda fonte de receita, principalmente em regiões com plantas capazes de fornecer resinas de interesse comercial.
É uma lógica importante para propriedades menores. A mesma colmeia pode gerar mel, própolis, cera, pólen e outros produtos, além do serviço econômico mais silencioso de todos: a polinização.
Da farmácia para o cardápio
E é aí que a nova tendência gastronômica começa a conversar com o produtor rural. A própolis possui sabor marcante. Dependendo da origem, aparecem características amargas, herbais, resinosas e picantes.
Isso limita a quantidade utilizada em uma receita, mas também cria justamente aquilo que a gastronomia procura: identidade. Pequenas doses podem aparecer em chocolates, caldas, cafés, sobremesas, molhos e coquetéis.
Não significa que toda própolis produzida no apiário possa simplesmente ir para a cozinha. O produto precisa ser adequado ao consumo, regularizado e utilizado considerando sua composição e concentração.
Também existe o cuidado com pessoas alérgicas a própolis ou outros produtos das abelhas. Mas a mudança de uso importa economicamente.
O produtor pode ganhar mais sem produzir mais mel
Durante muito tempo, quando se falava em aumentar a renda da apicultura, a primeira resposta era produzir mais mel. Essa lógica começa a mudar. A oportunidade pode estar também em extrair mais valor da mesma colmeia.
Própolis com origem identificada, qualidade comprovada, processamento, marca e novos usos consegue disputar mercados diferentes daqueles do produto básico. É exatamente o movimento que já aconteceu com café especial, queijo artesanal, cacau fino e tantos outros produtos do agro.
Primeiro o mercado aprende a distinguir. Depois começa a pagar pela diferença. A entrada da própolis na gastronomia ainda é um nicho e não há indicação de que pratos e drinques substituirão os mercados tradicionais do produto.
Mas existe um sinal interessante. Um ingrediente que já ganhou valor nos mercados de saúde, cosméticos e exportação começa a descobrir outra porta de entrada para o consumidor.
E, para milhares de apicultores, principalmente agricultores familiares, cada nova utilização pode significar uma coisa bastante concreta: mais valor saindo da mesma colmeia.







