sexta-feira, 28 de agosto de 2026
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Agronegócio

Produtores de leite criam entidade estadual em SC para ampliar voz da cadeia

Nova entidade reúne produtores de diferentes regiões de Santa Catarina e quer ampliar a participação da cadeia nas decisões estaduais e federais.

Produtores criam a União Catarinense dos Produtores de Leite para ampliar representação diante de preços baixos, custos, dívidas e importações.
Divulgação

União Catarinense dos Produtores de Leite elegeu primeira diretoria e começa a organizar agenda estadual em meio à pressão sobre preços, custos, endividamento e importações

Produtores de leite de diferentes regiões de Santa Catarina deram um passo para tentar ampliar a própria representação nas discussões que definem o futuro da atividade. A União Catarinense dos Produtores de Leite (UCPL) iniciou seu processo de constituição e elegeu a primeira diretoria durante reunião realizada em Xanxerê.

O encontro ocorreu no dia 12 de agosto, na sede da Associação dos Municípios do Alto Irani (AMAI), e reuniu aproximadamente 30 participantes, entre produtores e representantes de dez associações de municípios, presencialmente e de forma remota. Participaram representantes da AMAI, AMAUC, AMEOSC, AMERIOS, AMMOC, AMNOROESTE, AMOSC, AMUREL, GRANFPOLIS e AMAVI.

Mais do que criar uma nova entidade, o movimento tenta aproximar regiões produtoras que enfrentam problemas semelhantes e construir uma agenda capaz de chegar às decisões estaduais e federais sobre a cadeia do leite.

O produtor de Campo Erê Zito Fernando Lunardi foi eleito primeiro presidente da UCPL. Em vídeo sobre a constituição da entidade, ele afirmou que o objetivo é fortalecer a participação dos produtores nas discussões que interferem diretamente na atividade e dar maior representação ao setor nas decisões políticas.

“Queremos que seja representativa e que tenha voz e vez nas decisões sobre a produção de leite”, afirmou Lunardi.

Preço, custos e importações pressionam produtores

A nova entidade surge em um momento em que a cadeia leiteira catarinense tenta equilibrar produção elevada com dificuldades de rentabilidade.

A própria reunião de constituição apontou entre os principais problemas enfrentados pelos produtores a redução dos preços recebidos, os custos de produção, o endividamento das propriedades e a concorrência dos produtos importados.

Santa Catarina está entre os principais polos leiteiros do país. Em 2025, os estabelecimentos sob inspeção captaram aproximadamente 3,5 bilhões de litros, crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. O estado ficou na quarta posição nacional e respondeu por perto de 13% de toda a captação brasileira acompanhada pela Pesquisa Trimestral do Leite.

O tamanho da cadeia ajuda a explicar por que uma crise no leite ultrapassa rapidamente a propriedade rural. A atividade está presente principalmente em pequenas e médias propriedades e movimenta produção de milho e silagem, compra de ração, assistência técnica, máquinas, transporte, cooperativas, laticínios e comércio nos municípios produtores.

Em 2025, o leite gerou cerca de R$ 8,65 bilhões em valor da produção agropecuária catarinense, ficando atrás apenas de suínos e frangos entre os principais produtos acompanhados no estado.

Entidade quer levar produtor para dentro das decisões

Na avaliação de Zito Lunardi, um dos desafios será fazer com que o produtor tenha maior participação nas discussões que normalmente chegam ao campo depois de decididas.

O presidente eleito afirmou que a UCPL pretende atuar junto a entidades e aos governos estadual e federal, levando as demandas dos produtores e buscando construir soluções que permitam a continuidade econômica da atividade.

Essa representação ganha relevância porque diferentes questões que interferem na renda do leiteiro não são decididas apenas dentro da propriedade.

Política de crédito, renegociação de dívidas, defesa comercial, importação de lácteos, tributação, sanidade, assistência técnica e programas de incentivo passam por decisões públicas e negociações institucionais.

A intenção da nova organização é reunir as demandas que hoje aparecem de forma regional e transformá-las em uma pauta estadual.

Primeira diretoria já foi eleita

Além de Zito Fernando Lunardi, de Campo Erê, eleito presidente, a primeira diretoria terá Andersson Vidi, de Xaxim, como vice-presidente.

Também foram eleitos André Balestrini, de Pinhalzinho, para a Diretoria Administrativa; Eleandro Francisco Arsego, de Xanxerê, para a Diretoria Financeira; Marcelino Matiello, de Xaxim, para a Diretoria Técnica; Anderson Elias Bianchi, de Lajeado Grande, para Relações Institucionais; Thuisi Aparecida Vanderlinde, de Rio do Oeste, para Comunicação e Mobilização; e Micheli Mores, de Jaborá, para Núcleos Regionais.

Também foi constituído o Conselho Fiscal.

O advogado Fabiano Porto participou da reunião para orientar a elaboração do estatuto, a estrutura organizacional e os procedimentos jurídicos necessários para a formalização da UCPL. Com a diretoria definida, os próximos passos serão justamente concluir esse processo jurídico e começar a montar a agenda de atuação da entidade.

Permanência das famílias no leite entra na pauta

A preocupação da nova entidade não está limitada ao preço recebido pela produção atual.

Lunardi também colocou entre os objetivos da organização a permanência das famílias na atividade e, especialmente, a sucessão nas propriedades.

Para ele, é necessário criar condições para que filhos de agricultores enxerguem possibilidade de permanecer ou retornar ao campo e continuar produzindo leite.

Esse desafio ganha peso em Santa Catarina porque a cadeia passou por uma transformação produtiva importante nos últimos anos. O estado conseguiu ampliar a produtividade mesmo reduzindo o número de vacas ordenhadas. Em 2024, a produtividade média chegou a 15,9 litros por vaca por dia, a maior do país, segundo a Epagri/Cepa.

Ou seja, a atividade tornou-se mais tecnificada e eficiente, mas produtividade sozinha não garante permanência no campo se preço e custo não deixarem margem para investir, pagar dívidas e remunerar a família.

Uma nova voz em uma cadeia que cobra respostas

A criação da União Catarinense dos Produtores de Leite ainda está em sua etapa inicial. A diretoria foi eleita, mas a formalização jurídica e a construção da agenda estadual serão os próximos testes para saber qual espaço a entidade conseguirá ocupar.

A proposta é atuar em diálogo não apenas com produtores, mas também com agroindústrias, mercado, Epagri, Cidasc, universidades, poder público e demais organizações ligadas à cadeia.

O desafio será transformar uma representação que nasce regionalmente em capacidade efetiva de participar das decisões.

Santa Catarina já produz bilhões de litros de leite e ocupa uma posição estratégica no mercado nacional. Agora, parte dos produtores quer também aumentar o peso da sua voz na mesa onde são discutidas as regras, políticas e condições que determinam se essa produção continuará economicamente viável.

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